Luciano Hang Revela o Que Pensa Sobre Dinheiro e Ostentação
O empresário afirma que dinheiro deve proporcionar liberdade, não a necessidade de provar alguma coisa para os outros. Mas existe uma contradição interessante nessa ideia.
Existe uma imagem bastante consolidada sobre o que significa ser rico.
Carros importados.
Relógios de luxo.
Roupas de grife.
Casas extravagantes.
Viagens.
Tudo aquilo que funciona não apenas como patrimônio, mas também como sinal de status.
Luciano Hang, empresário e fundador da Havan, apresentou uma visão diferente sobre esse assunto em uma entrevista ao canal Primo Pobre.
E algumas das declarações chamam atenção justamente porque vêm de alguém que, segundo a Forbes, possui uma fortuna estimada em R$ 11,9 bilhões e aparece no topo do setor de varejo na lista de bilionários brasileiros de 2026.
Hang afirmou que não vê sentido em comprar determinados produtos apenas para demonstrar riqueza.
E deu um exemplo bastante simbólico:
“Eu nunca comprei um Rolex.”
A frase parece simples.
Mas levanta uma questão muito maior:
quanto daquilo que compramos realmente queremos — e quanto compramos para sermos percebidos de determinada maneira?
Para Luciano Hang, dinheiro significa liberdade
Quando questionado sobre o que significa possuir tanto dinheiro, Hang resumiu sua visão dizendo que “o dinheiro é algo que te dá liberdade”, atribuindo essa ideia ao pai.
É uma definição interessante porque muda o foco.
Dinheiro pode ser utilizado para comprar objetos.
Mas também pode comprar tempo, mobilidade, segurança e possibilidades.
O problema começa quando a riqueza deixa de ser uma ferramenta e passa a ser uma forma de buscar aprovação.
É possível ter muito dinheiro e continuar preso à opinião dos outros.
Você pode trocar o carro porque quer.
Ou porque precisa que alguém perceba que você pode pagar por ele.
Pode comprar um relógio porque aprecia relojoaria.
Ou porque quer que alguém reconheça seu status.
Externamente, os dois comportamentos podem parecer iguais.
Internamente, são completamente diferentes.
O dinheiro muda uma pessoa?
Hang também apresentou outra ideia durante a conversa.
Na visão dele, o dinheiro não necessariamente transforma alguém. Ele pode simplesmente revelar características que já estavam presentes.
Essa é uma distinção importante.
Imagine alguém que sempre buscou aprovação.
Quando essa pessoa passa a ganhar muito dinheiro, sua capacidade de buscar aprovação também aumenta.
Antes, talvez comprasse uma roupa cara.
Depois, pode comprar um carro.
Depois, um relógio.
Depois, uma casa.
O objeto muda.
A necessidade de validação permanece.
É por isso que riqueza e liberdade não são necessariamente a mesma coisa.
Moleca, Ipanema e roupas da própria Havan
Outro ponto curioso da entrevista foi a maneira como Hang descreveu suas escolhas pessoais.
O empresário afirmou que nunca deu muita importância para roupas e citou marcas populares como Moleca e Ipanema. Também afirmou utilizar roupas comercializadas pela própria Havan.
Isso não significa que alguém com bilhões não possa gostar de produtos caros.
Significa apenas que preço e valor pessoal não são necessariamente a mesma coisa.
Uma pessoa pode usar uma camiseta barata porque gosta dela.
Pode usar uma peça de luxo porque aprecia sua construção.
Nenhuma das duas escolhas determina, sozinha, o caráter de alguém.
O problema está em transformar o preço daquilo que você possui em uma medida do seu próprio valor.
E os aviões e helicópteros?
É aqui que a declaração de simplicidade fica mais interessante.
Questionado sobre possuir avião e helicóptero, Hang fez uma distinção.
Para ele, esses equipamentos não seriam objetos comprados simplesmente para ostentar, mas ferramentas de trabalho utilizadas em sua rotina profissional. Ele também afirmou ter medo de voar e justificou a escolha de aeronaves adequadas para suas viagens.
Essa distinção traz uma pergunta útil:
luxo é determinado pelo preço ou pela função?
Não existe uma resposta universal.
Um avião pode ser um símbolo de status para uma pessoa e uma ferramenta operacional para outra.
O mesmo vale para um carro, um computador, um relógio ou qualquer outro bem.
O objeto não conta toda a história.
A intenção também importa.
O curioso Fiat amarelo
Quando o assunto chegou aos carros, Hang afirmou que utiliza um Fiat amarelo para se locomover.
Também mencionou possuir um Tiguan comprado usado e um Chrysler 300C adquirido em 2006. Antes disso, contou que dirigia um Gol.
Mais uma vez, a declaração não significa que ele rejeite carros de luxo.
Pelo contrário.
O empresário afirmou que possui amigos que gostam de BMW e Mercedes e disse não ser contra esse tipo de consumo.
A crítica, segundo sua própria explicação, está em comprar algo apenas para ostentar.
Essa diferença é mais importante do que parece.
O Rolex virou o símbolo da discussão
Talvez nenhum objeto represente melhor a discussão sobre status do que um relógio de luxo.
Relógios possuem uma característica peculiar.
Eles podem cumprir exatamente a mesma função básica independentemente de custarem algumas centenas ou centenas de milhares de reais.
Por isso, quando o apresentador mencionou a ideia de um Rolex como símbolo de pertencimento entre pessoas muito ricas, Hang respondeu que nunca havia comprado um Rolex.
Segundo os relatos sobre a entrevista, ele afirmou que o relógio mais caro que havia comprado custou US$ 2 mil.
Sobre o relógio usado no cotidiano, as reportagens apresentam informações divergentes sobre o valor do Bulova. Por isso, o ponto seguro é outro: Hang disse que escolheu o relógio pela aparência e pela cor verde, e não simplesmente pelo preço.
E essa parte é mais interessante do que o valor do relógio.
Você compra porque gosta ou porque quer ser visto?
Essa talvez seja a pergunta mais importante de toda a história.
Imagine duas pessoas comprando exatamente o mesmo relógio.
A primeira compra porque estudou relojoaria, gostou do mecanismo, da história da marca e aprecia o objeto.
A segunda compra porque acredita que precisa daquele relógio para parecer importante.
O produto é o mesmo.
A relação com o produto é completamente diferente.
Foi justamente nesse sentido que Hang afirmou que não vê valor em comprar alguma coisa apenas para fazer outras pessoas pensarem que você é superior por aquilo que possui.
Essa ideia vai muito além de relógios.
Vale para carros.
Vale para roupas.
Vale para celulares.
Vale para restaurantes.
Vale para viagens.
Vale até para aquilo que você publica nas redes sociais.
O problema não é gostar de luxo
É importante fazer uma distinção.
Luxo não é automaticamente ostentação.
Você pode gostar de um relógio sofisticado.
Pode gostar de um carro esportivo.
Pode apreciar uma roupa de excelente qualidade.
Pode comprar uma casa extraordinária.
Nada disso é necessariamente um problema.
A questão começa quando o objeto passa a ter uma função psicológica diferente:
“Preciso que as pessoas saibam que posso pagar por isso.”
Nesse momento, você já não está apenas consumindo.
Está tentando construir uma imagem.
E construir uma imagem custa caro.
A verdadeira riqueza talvez seja não precisar provar nada
Existe uma ironia na relação entre dinheiro e status.
Quanto mais alguém precisa provar que é rico, maior pode ser sua dependência da percepção externa.
A pessoa compra.
Publica.
Mostra.
Compara.
Observa a reação.
E então precisa repetir o ciclo.
Isso não parece exatamente liberdade.
Liberdade seria poder escolher sem precisar da aprovação de ninguém.
Comprar porque você quer.
Não comprar porque você não quer.
Usar algo barato sem vergonha.
Usar algo caro sem precisar anunciá-lo.
Essa talvez seja uma definição muito mais interessante de riqueza.
A lição que vai além de Luciano Hang
Não é necessário concordar com tudo o que Luciano Hang diz.
Também não é necessário transformar suas escolhas pessoais em modelo universal.
Mas existe uma reflexão interessante nessa entrevista.
Um homem com patrimônio estimado em R$ 11,9 bilhões afirma que não precisa de um Rolex para se sentir rico.
Isso deveria fazer qualquer pessoa pensar sobre o próprio consumo.
Porque talvez o problema não seja querer coisas boas.
Talvez seja precisar delas para se sentir alguém.
Existe uma diferença enorme entre:
“Eu gosto disso.”
e
“Eu preciso que você veja que eu tenho isso.”
A primeira frase fala sobre gosto.
A segunda fala sobre necessidade de validação.
E nenhuma quantidade de dinheiro resolve uma necessidade que, na verdade, nunca foi financeira.
No fim, dinheiro deveria comprar opções
A frase mais interessante da entrevista talvez seja justamente a mais simples:
dinheiro como liberdade.
Esse conceito combina com uma ideia que o Código Nobre defende em diferentes áreas: patrimônio não deveria servir apenas para aumentar aquilo que você possui.
Deveria aumentar aquilo que você pode escolher.
Ter dinheiro para dizer não.
Ter dinheiro para não aceitar qualquer condição.
Ter dinheiro para proteger seu tempo.
Ter dinheiro para atravessar uma crise.
Ter dinheiro para escolher sem desespero.
Esse é um tipo de riqueza que não precisa de Rolex.
Porque liberdade não precisa ser exibida para existir.
